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Demodicose em cães: causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

A demodicose canina é uma das dermatopatias parasitárias mais frequentes na clínica de pequenos animais. A doença é causada pela proliferação excessiva de ácaros comensais do gênero Demodex, habitantes naturais das unidades pilosebáceas da pele dos cães. Embora esses ácaros façam parte da microfauna cutânea normal, alterações na resposta imunológica do hospedeiro podem favorecer sua multiplicação, resultando em diferentes formas clínicas da enfermidade, que variam desde apresentações localizadas e autolimitantes até quadros generalizados potencialmente graves. (1,2)

Ácaros do gênero Demodex sp.

Neste artigo serão abordados os principais aspectos relacionados à demodicose em cães, incluindo patogênese, espécies de Demodex descritas em cães, manifestações clínicas, métodos diagnósticos, recomendações atuais para o tratamento e orientações relacionadas ao manejo reprodutivo de animais acometidos, com base nas evidências científicas mais recentes.

O que é a demodicose canina?

A demodicose é uma doença parasitária da pele causada pela proliferação exagerada de ácaros do gênero Demodex. Esses ácaros vivem normalmente no interior dos folículos pilosos e glândulas sebáceas (unidade pilosebácea) dos mamíferos, estabelecendo uma relação de comensalismo com o hospedeiro. Em condições fisiológicas, sua presença não provoca doença; entretanto, quando ocorre um desequilíbrio na resposta imunológica do animal, sua multiplicação excessiva pode desencadear as lesões cutâneas características. (1,2,3)

Os ácaros do gênero Demodex foram descritos pela primeira vez em 1842 pelo dermatologista francês Gustav Simon. Desde então, mais de 140 espécies já foram identificadas parasitando diferentes mamíferos. Embora sejam considerados habitantes normais da pele, diversos estudos demonstram que, tanto em humanos quanto em animais domésticos, existe uma estreita associação entre a multiplicação excessiva desses ácaros e o desenvolvimento de doenças dermatológicas. (1,2,3)

Ao contrário de outros ectoparasitas, como pulgas e carrapatos, os ácaros Demodex fazem parte da microfauna cutânea normal dos cães. Portanto, o desenvolvimento da demodicose depende muito mais da capacidade do sistema imunológico em controlar sua população do que da simples presença do parasita. Esse conceito é fundamental para compreender a doença e direcionar corretamente sua investigação clínica e terapêutica. (1,2,3)

Por que a demodicose é importante na rotina clínica?

A demodicose é uma frequente enfermidade parasitária diagnosticada na dermatologia veterinária. Além da elevada prevalência, a doença apresenta grande importância clínica por poder estar associada a alterações imunológicas, endocrinopatias, neoplasias, terapias imunossupressoras ou outras doenças sistêmicas, especialmente em cães adultos. (1,2,3,4)

Lesões papuloeritematosas, crostas, hiperqueratose, hipotricose em região facial de cão filhote com demodicose generalizada.

 

 Patogênese da demodicose canina.

A demodicose canina é consequência da proliferação excessiva de ácaros do gênero Demodex, organismos comensais que habitam naturalmente as unidades pilosebáceas da pele dos cães. Em animais saudáveis, esses ácaros convivem em equilíbrio com o hospedeiro e não provocam alterações clínicas. O desenvolvimento da doença ocorre quando esse equilíbrio é rompido, permitindo a multiplicação exagerada dos parasitas. (1,2,3)

A transmissão dos ácaros ocorre principalmente da mãe para os filhotes durante os primeiros dias de vida, por meio do íntimo contato direto estabelecido durante a amamentação e os cuidados maternos. (1,2)

Entretanto, essa transmissão faz parte do processo normal de colonização da pele e, isoladamente, não determina o aparecimento da doença. Para que a demodicose se desenvolva, geralmente é necessário que o animal apresente alterações na resposta imunológica, decorrentes de enfermidades concomitantes, terapias imunossupressoras ou outros fatores predisponentes. (1,2,3,4)

A relação entre imunossupressão e demodicose já foi demonstrada em diferentes espécies, incluindo cães, gatos e seres humanos. (2,3,4)
Apesar disso, cães jovens aparentemente saudáveis também podem desenvolver a doença, especialmente na forma juvenil. Nesses pacientes, acredita-se que alterações imunológicas transitórias desempenhem papel importante na patogênese, permitindo a multiplicação excessiva dos ácaros durante um período crítico do desenvolvimento imunológico. (2,3,4)

Atualmente, existe forte evidência de que a demodicose juvenil possua componente hereditário. Embora o mecanismo genético ainda não tenha sido completamente esclarecido, acredita-se que a suscetibilidade à doença seja determinada por múltiplos genes envolvidos na regulação da resposta imunitária. (2)
Diversos estudos epidemiológicos reforçam essa hipótese ao demonstrarem maior predisposição em determinadas raças caninas. Em uma investigação, observou-se que cães das raças American Staffordshire Terrier, Staffordshire Bull Terrier, Shar-pei e Buldogue Francês apresentaram risco aproximadamente quatro vezes maior de desenvolver demodicose generalizada quando comparados a outras raças. (2,3,5)

Resultados semelhantes foram descritos em outro estudo, que identificou maior predisposição para demodicose juvenil em Buldogue Inglês, Pit Bull e Sealyham Terrier. Embora esses achados reforcem a influência genética na doença, a predisposição racial não deve ser interpretada como fator determinante isolado, mas sim como um componente adicional associado às alterações da resposta imunológica. (2,3,5)

Em cães adultos, o aparecimento da demodicose merece atenção especial, pois frequentemente está associado a doenças sistêmicas capazes de comprometer a imunidade do paciente. Endocrinopatias, neoplasias, enfermidades crônicas, uso prolongado de glicocorticoides ou de outros imunossupressores estão entre os principais fatores predisponentes descritos na literatura. Logo, sempre que a demodicose generalizada for diagnosticada em cães adultos, recomenda-se uma investigação clínica minuciosa para identificação e tratamento da causa de base. (2,3,4)

 

Demodicose generalizada de início adulto em paciente canino.

 

Principais fatores envolvidos na patogênese da demodicose canina.

Os principais mecanismos associados ao desenvolvimento da doença incluem:
* Colonização fisiológica da pele por ácaros do gênero Demodex desde os primeiros dias de vida; (2)
* Perda do equilíbrio entre o hospedeiro e o parasito, permitindo a multiplicação exagerada dos ácaros; (1,2,3)
* Alterações da resposta imunológica; (2,3,4)
* Predisposição genética, especialmente na demodicose juvenil; (2,3,5)
* Predisposição racial em determinadas linhagens caninas; (2,3,5)
* Doenças sistêmicas ou terapias imunossupressoras, particularmente na demodicose de início adulto. (2,3,4)

Aspectos clínicos relevantes.

É importante ressaltar que a presença de Demodex na pele não significa necessariamente doença. Esse conceito representa um dos princípios fundamentais da dermatologia veterinária e explica por que a simples identificação de um único ácaro em um raspado cutâneo nem sempre confirma o diagnóstico de demodicose clínica. O diagnóstico deve sempre considerar a associação entre sinais clínicos, quantidade de ácaros identificados e contexto clínico do paciente. (2,3)

Da mesma forma, compreender que a demodicose resulta principalmente de uma falha no controle imunológico do hospedeiro e não de uma infestação adquirida por contato entre cães adultos, irá auxiliar o clínico veterinário tanto na interpretação dos exames quanto na orientação adequada aos responsáveis, reduzindo dúvidas sobre transmissão e prognóstico. (2,3)

Espécies de Demodex em cães.

Durante muitos anos, a literatura descreveu a existência de três espécies de ácaros do gênero Demodex parasitando cães: Demodex canis, Demodex injai e Demodex cornei. Essa classificação baseava-se principalmente nas diferenças morfológicas observadas ao microscópio, especialmente no comprimento corporal dos ácaros. (2,4)

 

Ácaros Demodex sp.

 

O Demodex canis é a espécie mais frequentemente identificada em cães com demodicose. Trata-se do ácaro clássico da doença e apresenta corpo alongado, adaptado à vida no interior dos folículos pilosos. (2,4)

Demodex injai caracteriza-se por apresentar corpo significativamente mais longo que Demodex canis. As fêmeas adultas podem ser aproximadamente 50% mais longas, enquanto os machos chegam a apresentar comprimento cerca de duas vezes maior. Essa diferença morfológica permite sua identificação durante o exame microscópico e auxilia na diferenciação entre as espécies. (2,4)

Por outro lado, Demodex cornei foi originalmente descrito como um ácaro de corpo curto, consideravelmente menor que Demodex canis. Durante muitos anos, acreditou-se que essa característica justificasse sua classificação como uma terceira espécie capaz de parasitar cães. (2,4)

Entretanto, o avanço das técnicas de biologia molecular modificou significativamente esse entendimento. Estudos baseados em análises genéticas demonstraram elevada similaridade entre Demodex cornei e Demodex canis, sugerindo que o chamado “ácaro de corpo curto” representaria, na realidade, apenas uma variação morfológica de Demodex canis, e não uma espécie distinta. (2)

 

Demodex sp.

 

Posteriormente, uma análise taxonômica publicada em 2018 voltou a propor que o ácaro de corpo curto pudesse representar uma espécie canina independente. Apesar dessa proposta, o consenso atual descrito nas principais revisões e diretrizes internacionais considera que existem apenas duas espécies de Demodex com importância clínica comprovada em cães: Demodex canis e Demodex injai. (2,6,7)

Essa interpretação demonstra como a taxonomia do gênero Demodex permanece em evolução. Novos estudos utilizando ferramentas moleculares provavelmente continuarão refinando ou atualizando a classificação desses ácaros nos próximos anos.

 

Ácaro do gênero Demodex sp.

 

Principais diferenças entre as espécies descritas em cães.

Característica Demodex canis Demodex injai Demodex cornei
Frequência Muito frequente Menos frequente Controversa
Comprimento corporal Padrão Mais longo Mais curto
Situação taxonômica atual Espécie reconhecida Espécie reconhecida Provavelmente variante morfológica de D. canis (embora exista controvérsia)
Importância clínica Muito elevada Elevada Ainda discutida

Ácaros Demodex canis.

 

Aspectos clínicos relevantes.

Conhecer as diferenças morfológicas entre Demodex canis e Demodex injai, pode auxiliar o médico-veterinário na interpretação dos exames parasitológicos e na compreensão de apresentações clínicas menos usuais, que serão comentadas a seguir na descrição dos sinais clínicos.
Além disso, compreender a atual controvérsia envolvendo Demodex cornei evita interpretações equivocadas da literatura mais antiga, na qual esse ácaro frequentemente aparece descrito como uma terceira espécie canina. Atualmente, entretanto, a maioria dos especialistas considera que as evidências moleculares favorecem sua classificação como uma variante morfológica de Demodex canis. (2)

Sinais clínicos da demodicose canina.

As manifestações clínicas da demodicose canina variam de acordo com a intensidade da proliferação dos ácaros, a resposta imunológica do hospedeiro e a presença ou não de infecções secundárias. De forma geral, a doença é classificada em demodicose localizada e demodicose generalizada, classificação que possui importância clínica, terapêutica e prognóstica. (2,4,5)

Embora não exista consenso absoluto sobre os critérios utilizados para diferenciar essas apresentações, essa classificação continua sendo amplamente empregada na prática clínica e nas principais diretrizes internacionais. (2,5)

 

Hipotricose secundária a demodicose em região cefálica de paceinte canino.

 

 Demodicose localizada:

A demodicose localizada é a forma clínica mais frequentemente observada em cães jovens, especialmente em animais com menos de seis meses de idade. (4)
Nessa apresentação, as lesões geralmente consistem em uma ou poucas áreas pequenas de alopecia ou hipotricose, inicialmente pouco inflamatórias, localizadas principalmente na face e nos membros torácicos. (2,4)

As regiões periocular e perilabial representam os locais mais frequentemente acometidos, embora lesões também possam ser observadas nos membros e, ocasionalmente, no tronco. (2,4)

 

Hipotricose, alopecia, hiperpigmentação e inflamação periocular secundária a demodicose.

 

À medida que a doença evolui, podem surgir eritema discreto, descamação, comedões e hiperpigmentação localizada. Em alguns pacientes também podem ser observadas pápulas, pústulas superficiais, crostas e pequenas áreas de exsudação, especialmente quando ocorre infecção bacteriana secundária. (2,4,5)

A definição da forma localizada ainda é motivo de discussão na literatura. Alguns autores consideram localizada a presença de até cinco lesões cutâneas bem delimitadas. (5) Outros utilizam critérios mais amplos, incluindo pacientes com até quatro lesões ou até mesmo aqueles com acometimento inferior a 50% da superfície corporal, desde que as lesões permaneçam limitadas e sem comprometimento sistêmico. (2,4,5)

Essa falta de uniformidade explica por que alguns casos podem ser classificados de maneira diferente conforme o critério adotado pelo autor. (2)

Apesar dessas divergências, a maioria dos casos de demodicose localizada apresenta evolução favorável, sendo frequente a remissão espontânea, especialmente em cães jovens imunocompetentes. (2,4)

 

Demodicose localizada.

 

Principais lesões observadas na demodicose localizada:

* alopecia circunscrita;
* hipotricose;
* eritema discreto;
* descamação;
* comedões;
* hiperpigmentação localizada;
* pápulas;
* pústulas superficiais;
* pequenas crostas.

Na maioria dos pacientes, o estado geral permanece preservado e o prurido é discreto ou ausente. (2,4)

 

Demodicose localizada em paciente canino jovem.

 

 Demodicose generalizada:

A demodicose generalizada representa a forma mais grave da doença e exige tratamento sistêmico associado ao monitoramento parasitológico periódico. (2,4,5)

São considerados portadores de demodicose generalizada os cães que apresentam múltiplas lesões distribuídas pelo corpo, acometimento de duas ou mais patas ou grandes áreas de pele afetadas. (2,5)

 

Demodicose generalizada juvenil.

 

De acordo com a idade de início, essa apresentação pode ser classificada em:

  • Demodicose generalizada juvenil, quando os sinais clínicos surgem antes dos 18 meses de idade;
  • Demodicose generalizada de início adulto, geralmente diagnosticada em cães com mais de quatro anos de idade. (5)

Essa diferenciação possui importância prognóstica, pois a forma de início adulto frequentemente está associada à presença de doenças sistêmicas capazes de comprometer a resposta imunológica do paciente. (2,5)

As lesões podem variar desde áreas multifocais até extensas regiões coalescentes de alopecia, frequentemente acompanhadas por obstrução folicular, dilatação dos óstios foliculares, descamação e hiperpigmentação acentuada. (2)

Quando há acometimento dos membros, especialmente das patas, é comum observar inflamação interdigital, edema, dor e intensa hiperpigmentação, caracterizando a chamada pododemodicose, uma das formas clínicas mais desafiadoras da enfermidade. (2,5)

 

Paciente canino com pododemodicose.

 

O prurido ocorre na demodicose?

Ao contrário do que muitos proprietários imaginam, o prurido não é considerado um sinal clínico predominante da demodicose.

Nos casos leves, muitos cães apresentam pouco ou nenhum prurido. (2,5)

Quando o prurido é intenso, deve-se considerar principalmente duas possibilidades:
* desenvolvimento de piodermite bacteriana secundária;
* envolvimento da variante morfológica de corpo curto de Demodex canis, situação descrita em alguns estudos. (2,5)

Esse aspecto possui grande importância clínica, pois muitos pacientes inicialmente atendidos por prurido intenso apresentam, na realidade, uma infecção bacteriana secundária responsável pela maior parte do desconforto do animal.

Piodermite secundária.
A infecção bacteriana secundária pode representar uma das complicações mais importantes da demodicose generalizada. (2,4,5)
A proliferação bacteriana favorece o aparecimento de:
* pústulas foliculares;
* furunculose;
* exsudação;
* crostas;
* descamação intensa;
* erosão/ulceração;
* trajetos fistulosos. (2,4)

Nos casos mais graves, especialmente quando ocorre piodermite profunda, o paciente pode apresentar dor intensa, linfadenomegalia, febre, letargia e comprometimento do estado geral. Em situações extremas, a disseminação sistêmica da infecção pode culminar em septicemia secundária, condição potencialmente fatal caso não seja tratada adequadamente. (2,4)

 

Paciente canino com lesões erodo-ulcerativas secundárias a demodicose em região cefálica.

 

Demodicose causada por Demodex injai.

Embora compartilhe diversas características com a demodicose clássica causada por Demodex canis, a infestação por Demodex injai costuma apresentar um padrão clínico bastante característico.
A alteração mais marcante é a intensa oleosidade da pele, principalmente sobre a região dorsal do tronco, frequentemente acompanhada por odor cutâneo pronunciado e alopecia variável. Essa apresentação parece ocorrer com maior frequência em cães pertencentes ao grupo Terrier e seus mestiços. (2)

 

Demodicose generalizada de início em idade adulta.

 

 Principais manifestações clínicas da demodicose generalizada canina.

* alopecia;
* hipotricose;
* eritema;
* descamação;
* comedões;
* hiperpigmentação;
* pápulas;
* pústulas;
* crostas;
* exsudação;
* furunculose;
* pododemodicose;
* oleosidade intensa (especialmente em infecções por Demodex injai);
* piodermite bacteriana secundária. (2,4,5)

 

Comedões em cão com demodicose.

 

Diagnóstico da demodicose canina.

O diagnóstico da demodicose canina baseia-se na associação entre histórico clínico, exame dermatológico e identificação dos ácaros do gênero Demodex. Na maioria dos pacientes, a confirmação é obtida por métodos parasitológicos simples, rápidos e de baixo custo, sendo o raspado cutâneo profundo considerado o exame de eleição. (2,4)

A escolha do método diagnóstico deve levar em consideração a localização das lesões, o temperamento do paciente, o tipo de pelagem e a experiência do examinador. Em determinadas situações, diferentes técnicas podem ser utilizadas de forma complementar para aumentar a sensibilidade diagnóstica. (2,4)

Raspado cutâneo profundo.

O raspado cutâneo profundo é considerado o principal método diagnóstico para a demodicose canina e permanece como a técnica de escolha na maioria dos pacientes com suspeita clínica da doença. (2,4)

O procedimento pode ser realizado utilizando uma lâmina de bisturi associada à aplicação de uma gota de óleo mineral diretamente sobre a pele ou sobre a própria lâmina, facilitando a aderência do material coletado. (2,4)

Para aumentar a sensibilidade do exame, recomenda-se realizar múltiplos raspados em áreas representativas das lesões, preferencialmente com aproximadamente 1 cm², sempre acompanhados de compressão firme da pele durante a coleta. Essa manobra promove a expulsão dos ácaros presentes no interior dos folículos pilosos para a superfície cutânea, aumentando significativamente o número de parasitas encontrados. (2,4)

O raspado deve ser suficientemente profundo para provocar discreto sangramento capilar, garantindo que o material coletado contenha estruturas provenientes dos folículos pilosos, onde os ácaros habitam. (1,2,4)

 

Raspado cutâneo profundo.

 

Em cães de pelagem longa, recomenda-se realizar tosa leve da área a ser raspada (no sentido do crescimento do pelo) antes da coleta. Esse procedimento reduz a perda de material para a pelagem adjacente e facilita a execução do exame. (2)

Após a coleta, o material deve ser transferido para uma lâmina de microscopia contendo óleo mineral ou óleo de parafina e coberto com lamínula. A avaliação microscópica é realizada em pequeno aumento (40x a 100x), sendo útil reduzir a intensidade luminosa do microscópio por meio do abaixamento do condensador, aumentando o contraste e facilitando a visualização dos ácaros. (1,2,4)

Como interpretar o raspado cutâneo?

A interpretação do exame exige atenção, pois os ácaros do gênero Demodex fazem parte da microbiota normal da pele dos cães.

Dessa forma, a identificação ocasional de um único ácaro em várias raspagens pode representar um achado fisiológico, embora seja relativamente incomum. (2)

Por outro lado, a identificação de mais de um ácaro, especialmente quando associada a sinais clínicos compatíveis, é fortemente sugestiva de demodicose clínica. (2)

Quando apenas um ácaro é encontrado em um paciente com elevada suspeita clínica, recomenda-se repetir o exame realizando novas raspagens em diferentes áreas lesionadas antes de descartar ou confirmar definitivamente o diagnóstico. (2)

 

Demodex sp. identificado em raspado cutâneo profundo.

 

Monitoramento do tratamento.
Além de confirmar o diagnóstico, o raspado cutâneo profundo desempenha papel fundamental no acompanhamento terapêutico.
Durante cada reavaliação, recomenda-se examinar preferencialmente os mesmos locais previamente raspados e registrar a quantidade de ovos, larvas, ninfas e ácaros adultos encontrados. Essa padronização permite avaliar objetivamente a resposta ao tratamento e identificar precocemente falhas terapêuticas ou possíveis recidivas. (2)

A redução progressiva do número de ácaros e o desaparecimento das formas imaturas representam importantes indicadores de sucesso terapêutico. (2)

 

 Técnica da fita adesiva (teste da fita Scotch®).

A técnica da fita adesiva constitui uma alternativa simples, rápida e pouco invasiva para o diagnóstico da demodicose canina. Diversos estudos demonstram que sua sensibilidade pode ser bastante elevada, especialmente quando associada à compressão da pele antes da coleta. (2,4)

 

Demodex sp. identificado em exame de fita adesiva.

 

Demodex sp. encontrado com exame de fita adesiva.

Durante o procedimento, o examinador comprime delicadamente a área lesionada enquanto aplica uma fita adesiva transparente sobre a pele, mantendo a face adesiva em contato direto com a superfície cutânea. Essa compressão favorece a exteriorização dos ácaros presentes nas unidades pilosebáceas. (2)

 

Sequência do exame com fita adesiva.

 

Posteriormente, a fita é colocada sobre uma lâmina de microscopia, com a face adesiva voltada para baixo, permitindo a avaliação direta ao microscópio.
Além de apresentar boa sensibilidade diagnóstica, essa técnica possui importante vantagem prática: é pouco traumática e bem tolerada por cães sensíveis ou por pacientes com lesões localizadas em regiões onde o raspado profundo pode ser mais difícil ou doloroso. (2,4)

 

Ácaros Demodex sp. identificados em exame de fita adesiva.

 

 Tricograma.

O tricograma representa outra técnica complementar útil no diagnóstico da demodicose, principalmente em regiões anatômicas onde o raspado cutâneo profundo apresenta maior dificuldade técnica, como áreas perioculares e interdigitais. (2)

O exame consiste na remoção de aproximadamente 50 a 100 pelos de uma área de cerca de 1 cm² utilizando uma pinça hemostática ou anatômica. Os pelos devem ser tracionados no sentido de crescimento e posteriormente depositados sobre uma lâmina contendo óleo mineral ou óleo de parafina, sendo então cobertos por lamínula para avaliação microscópica. (2)

Embora apresente elevado rendimento diagnóstico, especialmente em pacientes cooperativos, resultados negativos não excluem a presença de demodicose. Nesses casos, recomenda-se complementar a investigação por meio de raspados cutâneos profundos ou exame com fita adesiva antes de descartar definitivamente a doença. (2,4)

 

Coleta de material para tricograma.

 

Biópsia cutânea.

A biópsia cutânea é indicada apenas em situações específicas, quando os métodos parasitológicos convencionais apresentam resultados negativos, apesar da forte suspeita clínica de demodicose. (2)

Nessas situações, o exame histopatológico pode demonstrar ácaros localizados nas unidades pilosebáceas ou associados a granulomas de corpo estranho decorrentes de furunculose folicular. (2)

Esse cenário é relativamente incomum, mas pode ocorrer principalmente em determinadas regiões anatômicas, como as patas, ou em raças com pele espessa, pregueada e com excesso de mucina, como o Shar-pei. (2)

 

Outros métodos diagnósticos.

Quando a demodicose está associada à piodermite profunda, a avaliação microscópica do exsudato obtido de pústulas ou trajetos fistulosos também pode revelar a presença de ácaros do gênero Demodex. Após a coleta, o material é colocado sobre uma lâmina de microscopia com óleo mineral e examinado em pequeno aumento. (4)

Outra técnica descrita na literatura é a flutuação fecal. Entretanto, estudos demonstram que esse método apresenta sensibilidade significativamente inferior à do raspado cutâneo profundo, produzindo frequentemente resultados falso-negativos. Dessa forma, sua utilização rotineira não é recomendada para o diagnóstico da demodicose canina. (2)

 

Qual método diagnóstico escolher?

Na prática clínica, o raspado cutâneo profundo permanece como o método de eleição para confirmação da demodicose canina. Entretanto, a associação entre diferentes técnicas aumenta significativamente a sensibilidade diagnóstica, principalmente em pacientes com lesões localizadas em regiões de difícil acesso.

De maneira geral, recomenda-se a seguinte abordagem:

Método Principal indicação Vantagens Limitações
Raspado cutâneo profundo Exame de primeira escolha Alta sensibilidade, baixo custo e monitoramento terapêutico Requer experiência e pode causar discreto desconforto
Fita adesiva Regiões sensíveis ou pacientes pouco colaborativos Rápido, simples e pouco invasivo Sensibilidade dependente da técnica
Tricograma Regiões perioculares e interdigitais Fácil execução e boa tolerância Resultado negativo não exclui a doença
Biópsia cutânea Casos inconclusivos Permite avaliação histopatológica Método invasivo e de maior custo
Exsudato de pústulas/fístulas Piodermite profunda Complementar em casos selecionados Baixa aplicabilidade rotineira

 

Tratamento da demodicose canina.

O tratamento da demodicose canina evoluiu consideravelmente nas últimas décadas. O surgimento das isoxazolinas modificou positivamente o prognóstico da doença, proporcionando elevadas taxas de eficácia ao tratamento, maior segurança e protocolos terapêuticos mais simples quando comparados aos tratamentos tradicionalmente utilizados. (1,2)

Entretanto, independentemente do medicamento escolhido, alguns princípios terapêuticos permanecem fundamentais para o sucesso do tratamento.
O primeiro deles é reconhecer que a resolução clínica das lesões não significa necessariamente o controle adequado dos ácaros. Dessa forma, a decisão de interromper o tratamento nunca deve ser baseada apenas na melhora clínica do paciente. (2)

Além disso, sempre que possível, é indispensável investigar e tratar doenças concomitantes capazes de comprometer a resposta imunológica do hospedeiro, especialmente nos casos de demodicose generalizada de início adulto. (2,3,4)

 

Monitoramento do tratamento.

O acompanhamento clínico e parasitológico é parte indispensável do tratamento.
As diretrizes atuais recomendam que os pacientes sejam reavaliados mensalmente por meio de raspados cutâneos profundos realizados preferencialmente nas mesmas áreas previamente examinadas. (2)

O tratamento acaricida deve ser mantido até a obtenção de dois raspados cutâneos mensais consecutivos negativos, sendo posteriormente prolongado por mais quatro semanas para reduzir o risco de recidiva. (2)

Essa recomendação possui grande importância prática, pois muitos pacientes apresentam recuperação clínica antes do controle adequado dos ácaros.

 

Objetivos do tratamento.

O tratamento da demodicose canina deve buscar simultaneamente:
* controle adequado dos ácaros presentes na pele, objetivando os exames parasitológicos  negativos;
* promover a resolução das lesões cutâneas;
* controlar infecções secundárias;
* identificar e tratar doenças predisponentes;
* reduzir o risco de recidivas;
* restabelecer a qualidade de vida do paciente.

Tratamento da piodermite secundária.

A piodermite bacteriana representa uma das complicações mais frequentes da demodicose generalizada.
Entretanto, diferentemente do que se acreditava no passado, muitos desses pacientes não necessitam de antibioticoterapia sistêmica.
As recomendações atuais indicam que, na maioria dos casos, a associação entre terapia acaricida eficaz e tratamento antimicrobiano tópico é suficiente para controlar a infecção bacteriana superficial. (2,4)

O uso de antibióticos sistêmicos deve ficar reservado para pacientes com piodermite profunda, furunculose extensa e/ou comprometimento sistêmico decorrente da infecção bacteriana, ou ainda nos pacientes onde a terapia tópica não seja viável. (2,4)

Essa recomendação está alinhada aos princípios atuais de uso racional dos antimicrobianos e representa um importante avanço na medicina veterinária moderna.

 

Terapia tópica.

Embora a terapia sistêmica represente a base do tratamento da demodicose generalizada, o tratamento tópico continua exercendo importante papel como terapia adjuvante.
Além de auxiliar na redução da carga microbiana cutânea, os banhos terapêuticos contribuem para remoção de crostas, redução da oleosidade e melhora da higiene da pele, favorecendo a recuperação clínica.
Nos pacientes que apresentam intensa seborréia e numerosos comedões, o uso de xampus contendo peróxido de benzoíla a 2,5% pode ser benéfico devido ao seu efeito desengordurante e à capacidade de promover o chamado flushing folicular, facilitando a limpeza dos folículos pilosos. (2)

 

Exame de raspado cutâneo profundo positivo para demodex sp.

 

Tratamentos clássicos da demodicose canina.

Antes da introdução das isoxazolinas, diversas moléculas eram utilizadas rotineiramente no tratamento da demodicose generalizada. Embora ainda representem alternativas terapêuticas eficientes, atualmente elas são consideradas tratamentos de segunda linha na maioria dos pacientes. (2)

Amitraz.

O amitraz foi durante muitos anos o tratamento padrão para demodicose canina.
Sua utilização é realizada por meio de banhos semanais utilizando soluções entre 0,025% e 0,05%. Em cães de pelagem longa, recomenda-se realizar tricotomia antes da aplicação para aumentar o contato do produto com a pele. (2,4)

Apesar da eficácia comprovada, o uso do amitraz apresenta limitações importantes, incluindo maior dificuldade de aplicação, necessidade de banhos frequentes e risco de intoxicação tanto para o paciente quanto para o manipulador. (2,4,8)

Lactonas macrocíclicas.

As lactonas macrocíclicas representaram um importante avanço terapêutico antes do desenvolvimento das isoxazolinas.(2,9)
Embora apresentem elevada eficácia, sua utilização requer maior atenção quanto aos efeitos adversos, especialmente em cães portadores da mutação do gene ABCB1 (MDR1). (2)

 Ivermectina.

A ivermectina pode ser administrada por via oral na dose de 0,3 a 0,6 mg/kg ao dia. (2,9,10)
Entretanto, sua utilização não é recomendada em cães das raças Collie, Border Collie, Pastor de Shetland ou Shetland Sheepdog, Australian Cattle Dog, Afghan Hound e outras linhagens susceptíveis à mutação do gene ABCB1, devido ao elevado risco de neurotoxicidade. (2,9,10)
Sempre que possível, recomenda-se aumentar a dose gradualmente durante os primeiros dias de tratamento para identificar precocemente pacientes hipersensíveis. (2)

Moxidectina.

A moxidectina pode ser utilizada na dose de 0,3 a 0,5 mg/kg/dia. (2,9,10)
Quando comparada à ivermectina, parece apresentar melhor tolerabilidade em alguns cães geneticamente predispostos à toxicidade das lactonas macrocíclicas. Entretanto, também se recomenda aumento gradual da dose durante os primeiros dias de tratamento como medida de segurança. (2,9,10)

Milbemicina oxima.

A milbemicina oxima é administrada na dose de 1,0 a 2,0 mg/kg/dia. (2,10)
Em cães pertencentes a raças predispostas à mutação ABCB1, recomenda-se avaliação genética sempre que disponível ou utilização de protocolos mais conservadores, com doses iniciais menores e aumento gradual semelhante ao empregado para ivermectina. (2,9,10)

Doramectina.

A doramectina pode ser administrada por via subcutânea, uma vez por semana, na dose de 0,6 mg/kg. (2)
Diversos estudos demonstram boa eficácia no tratamento da demodicose generalizada. Entretanto, assim como ocorre com ivermectina, seu uso deve ser evitado em cães pertencentes às raças com risco aumentado de sensibilidade às lactonas macrocíclicas. (2,10,11)

Associação de moxidectina e imidacloprida.

A formulação tópica contendo moxidectina associada ao imidacloprida pode representar uma alternativa terapêutica para cães com demodicose localizada ou formas generalizadas leves a moderadas. (2)

Embora apresente eficácia inferior às isoxazolinas na maioria dos estudos, as lactonas macrocíclicas continuam sendo opções válidas em determinadas situações clínicas. (2)

Considerações clínica.

Embora ivermectina, moxidectina, milbemicina oxima e doramectina apresentem comprovada eficácia contra a demodicose canina, todas exigem maior monitoramento devido ao risco de efeitos adversos, deve-se evitar o uso em cães portadores da mutação ABCB1.
Por esse motivo, com o advento das isoxazolinas, essas moléculas passaram gradativamente a ocupar posição secundária nas recomendações terapêuticas atuais, permanecendo como alternativas viáveis quando o tratamento de primeira escolha não puder ser empregado. (2)

 

Isoxazolinas no tratamento da demodicose canina

A introdução das isoxazolinas representou um avanço da dermatologia veterinária moderna. Desde sua disponibilização comercial, essa classe farmacológica modificou o tratamento da demodicose canina, oferecendo elevada eficácia acaricida, excelente perfil de segurança e protocolos terapêuticos significativamente mais simples quando comparados às terapias tradicionais. (2,12,13)

Atualmente, as isoxazolinas são consideradas os medicamentos de primeira escolha para o tratamento da demodicose generalizada, conforme recomendado pelas principais diretrizes internacionais. (2)

Além da elevada atividade contra ácaros do gênero Demodex, essas moléculas também apresentam ação contra pulgas e carrapatos, permitindo o controle simultâneo de importantes ectoparasitos em um único tratamento. (2,12,13)

 

Mecanismo de ação

As isoxazolinas atuam por meio do bloqueio seletivo dos canais de cloreto regulados pelo ácido gama-aminobutírico (GABA) e pelo glutamato presentes no sistema nervoso dos artrópodes. (2,13,14,15)

A inibição desses canais provoca hiperexcitação neuronal, paralisia e morte dos ácaros, mantendo ampla margem de segurança para os mamíferos devido à elevada seletividade pelos receptores dos parasitas. (13,15)

Essa seletividade explica por que as isoxazolinas apresentam excelente tolerabilidade clínica quando utilizadas nas doses recomendadas.

 

Vantagens das isoxazolinas

Quando comparadas aos tratamentos tradicionalmente utilizados, as isoxazolinas apresentam diversas vantagens:
* elevada eficácia acaricida;
* rápida redução da população de Demodex;
* excelente perfil de segurança;
* administração simples;
* maior adesão ao tratamento pelos tutores;
* menor risco de intoxicação quando comparadas ao amitraz;
* ausência do risco de neurotoxicidade observado nas lactonas macrocíclicas em cães portadores da mutação ABCB1. (2,13)

Essas características justificam sua posição como tratamento de primeira escolha na maioria dos protocolos terapêuticos atuais.

Fluralaner.

O fluralaner, isoxazolina amplamente estudada para o tratamento da demodicose canina.
Diversos estudos clínicos demonstraram elevadas taxas de eficiência utilizando dose única oral de 25 a 56 mg/kg, com eficácia mantida por aproximadamente 12 semanas. (15,16,17)
Além da melhora clínica progressiva das lesões cutâneas, observa-se redução rápida do número de ácaros já nas primeiras semanas após o início do tratamento. (15,16,17)
Uma das principais vantagens do fluralaner é seu longo período de ação, permitindo intervalos maiores entre as administrações e favorecendo significativamente a adesão ao tratamento pelos tutores.

Afoxolaner.

O afoxolaner também demonstrou elevada eficácia no tratamento da demodicose generalizada.
Os estudos disponíveis evidenciam redução expressiva da carga parasitária e recuperação clínica progressiva quando administrado mensalmente na dose recomendada pelo fabricante. (18,19)
Assim como ocorre com o fluralaner, o tratamento deve ser mantido até a obtenção dos critérios parasitológicos estabelecidos pelas diretrizes atuais, independentemente da resolução clínica das lesões. (2,18,19)

Sarolaner.

O sarolaner apresenta excelente atividade contra Demodex, sendo atualmente considerado uma excelente opção terapêutica para demodicose canina.
Diversos estudos demonstraram rápida redução da carga parasitária já nas primeiras semanas de tratamento, acompanhada de recuperação progressiva da pelagem e resolução das alterações cutâneas. (1,20,21)
Sua administração mensal facilita o acompanhamento clínico, coincidindo com as reavaliações recomendadas para realização dos raspados cutâneos de controle.

Lotilaner.

O lotilaner representa outra isoxazolina com eficácia comprovada contra a demodicose canina.
Os estudos disponíveis demonstram elevada atividade acaricida e excelente perfil de segurança, com resultados clínicos comparáveis aos observados para as demais moléculas da classe. (22)
Sua utilização amplia ainda mais as opções terapêuticas disponíveis para o médico-veterinário, permitindo individualizar a escolha do medicamento de acordo com as características do paciente e a disponibilidade comercial.

As isoxazolinas são equivalentes?

Embora existam diferenças farmacocinéticas entre fluralaner, afoxolaner, sarolaner e lotilaner, os estudos clínicos disponíveis demonstram que todas apresentam elevada eficácia no tratamento da demodicose canina quando utilizadas conforme as recomendações dos fabricantes. (1,2,15,16,17,18,19,20,21,22)
Até o momento, nenhuma evidência científica consistente demonstra superioridade clínica absoluta de uma molécula sobre outra.

Dessa forma, a escolha entre as diferentes isoxazolinas deve considerar fatores como:
* experiência do médico veterinário;
* disponibilidade comercial;
* facilidade de administração;
* histórico clínico do paciente;
* preferência do tutor.

Segurança das isoxazolinas.

As isoxazolinas apresentam excelente perfil de segurança na maioria dos cães.
Os efeitos adversos descritos são pouco frequentes e, quando ocorrem, geralmente consistem em alterações gastrointestinais leves e autolimitantes, como vômito, diarreia transitória e redução passageira do apetite. (2)
Eventos neurológicos são raros, mas já foram descritos em alguns pacientes suscetíveis. Por esse motivo, recomenda-se cautela na utilização dessas moléculas em cães com histórico prévio de epilepsia ou outras doenças neurológicas, avaliando cuidadosamente a relação entre riscos e benefícios em cada caso. (2)

 

Exame com fita adesiva positivo para demodicose.

 

O futuro do tratamento.

O advento das isoxazolinas modificou o prognóstico da demodicose canina.
Pacientes que anteriormente necessitavam de longo  tratamento intensivo com banhos de amitraz ou administração diária de lactonas macrocíclicas passaram a ser tratados com protocolos mais simples, seguros e altamente eficazes.

Consequentemente, as taxas de cura parasitária aumentaram de maneira significativa, enquanto a ocorrência de efeitos adversos e a dificuldade de adesão ao tratamento diminuíram consideravelmente. (2,13,15,19,21)

Atualmente, as isoxazolinas representam o padrão terapêutico de referência para a maioria dos cães com demodicose generalizada. (23)

 

Pontos-chave.

✓ As isoxazolinas são atualmente o tratamento de primeira escolha para a demodicose canina.
✓ Todas as moléculas da classe apresentam elevada eficácia quando utilizadas conforme as recomendações dos fabricantes.
✓ A melhora clínica não deve ser utilizada como único critério para interromper o tratamento.
✓ Monitoramento por raspados cutâneos seriados continua sendo indispensável.
✓ Investigação de doenças de base é fundamental nos casos de início adulto.

 

Principais erros no tratamento da demodicose.
Os erros mais frequentemente observados incluem:

  • interromper o tratamento apenas porque a pele melhorou;
  • deixar de investigar doenças de base em cães adultos;
  • realizar poucos raspados durante o acompanhamento;
  • utilizar antibióticos sistêmicos desnecessariamente;
  • interpretar a presença isolada de um ácaro como diagnóstico definitivo.

 

Reprodução de cães com demodicose.

A relação entre predisposição genética e demodicose juvenil tem sido amplamente discutida na literatura científica. Embora o mecanismo hereditário ainda não esteja completamente esclarecido, diversas evidências sugerem que fatores genéticos influenciam a suscetibilidade ao desenvolvimento da doença. (2,3,5)

Em razão dessa associação, recomenda-se excluir da reprodução as cadelas que deram à luz filhotes com demodicose, esta exclusão tem como objetivo uma redução acentuada no número de filhotes afetados pela doença; a Academia Americana de Dermatologia Veterinária, no ano de 1981, adotou uma resolução recomendando a “castração de todos os cães que apresentaram demodicose generalizada, para que a incidência da doença seja reduzida e não perpetuada”. Em suma a recomendação é: “que cães afetados ou seus pais não sejam utilizados para reprodução”. (2) Essa recomendação tem como objetivo reduzir a transmissão da predisposição genética para as gerações futuras, contribuindo para diminuir a incidência da enfermidade em determinadas linhagens.

É importante destacar que essa orientação se refere à predisposição hereditária e não à transmissão dos ácaros. Como os ácaros do gênero Demodex fazem parte da microfauna normal da pele dos cães e são transmitidos naturalmente da mãe para os filhotes nos primeiros dias de vida, impedir a reprodução não evita a colonização pelos ácaros, mas pode reduzir a disseminação da susceptibilidade genética à doença. (2,3)

 

Raspado profundo de pele positivo para Demodex sp.

 

Prognóstico.

O prognóstico da demodicose canina depende principalmente da apresentação clínica da doença, da idade de início, da presença de doenças concomitantes e da resposta ao tratamento.

A demodicose localizada juvenil apresenta geralmente prognóstico favorável. Muitos cães evoluem para remissão espontânea, enquanto outros respondem rapidamente ao tratamento, sem apresentar recidivas. (2)

Já a demodicose generalizada juvenil também pode apresentar prognóstico favorável quando diagnosticada precocemente e tratada adequadamente. A introdução das isoxazolinas elevou significativamente as taxas de cura parasitológica e reduziu a ocorrência de recidivas quando comparada aos protocolos tradicionalmente utilizados. Entretanto a classificação do prognóstico pode variar de acordo com a extensão, profundidade das lesões, infecções secundárias, quadro geral do paciente entre outros fatores(2,5,13,16,19)

Nos casos de demodicose de início adulto, o prognóstico depende não apenas do controle dos ácaros, mas principalmente da identificação e do controle da doença de base responsável pela imunossupressão. Endocrinopatias, neoplasias, enfermidades crônicas e terapias imunossupressoras podem influenciar diretamente a resposta terapêutica e o risco de recorrência. (2,3,4)

 

É importante explicar ao tutor que:

  •         a doença normalmente não é contagiosa;
  •         o tratamento pode durar vários meses;
  •         a melhora clínica ocorre antes da cura parasitológica;
  •         o acompanhamento é indispensável;
  •         nunca se deve interromper o tratamento sem orientação veterinária.

 

Conclusão.

A demodicose canina permanece como uma das principais dermatopatias parasitárias da medicina veterinária de pequenos animais. Embora os ácaros do gênero Demodex façam parte da microfauna normal da pele dos cães, alterações na resposta imunológica podem favorecer sua proliferação excessiva, resultando em manifestações clínicas que variam desde formas localizadas e autolimitantes até apresentações generalizadas potencialmente graves.
Nas últimas décadas, importantes avanços ampliaram significativamente o conhecimento sobre a biologia desses ácaros, a patogênese da doença e os fatores envolvidos em sua predisposição. Paralelamente, a introdução das isoxazolinas transformou o tratamento da demodicose canina, proporcionando protocolos mais seguros, eficazes e de fácil administração, tornando-se a terapia de primeira escolha na maioria dos pacientes. (2,13)
Entretanto, o sucesso terapêutico continua dependendo de três princípios fundamentais:
* diagnóstico correto;
* investigação e tratamento dos fatores predisponentes;
* monitoramento por raspados cutâneos seriados até a confirmação da cura parasitológica.

A compreensão desses conceitos permite ao médico-veterinário estabelecer protocolos terapêuticos mais eficazes, reduzir a ocorrência de recidivas e proporcionar melhor qualidade de vida aos pacientes acometidos.

 

Pontos-chave.

✔ Demodicose canina é causada pela proliferação excessiva de ácaros comensais do gênero        Demodex.
✔ A presença de Demodex na pele não significa, por si só, doença.
✔ O raspado cutâneo profundo permanece como o principal método diagnóstico.
✔ Realizar investigação de doenças predisponentes é indispensável, especialmente nos casos de início adulto.
✔ As isoxazolinas representam atualmente o tratamento de primeira escolha para a demodicose generalizada.
✔ Melhora clínica não deve ser utilizada como único critério para interromper o tratamento.
✔ O tratamento deve ser mantido até a obtenção de dois raspados cutâneos consecutivos negativos, conforme recomendado pelas diretrizes atuais.
✔ Prognóstico pode ser favorável quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é conduzido de forma adequada.

 

Prof. Dr. Raniere Gaertner.

 

Bibliografia consultada.
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