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Piodermites Profundas em cães.

Conceito.

Piodermite Profundas são infecções tegumentares onde a lesões se estendem além da epiderme e unidade pilosebácea, atingindo a derme e por vezes a hipoderme. 

As piodermites profundas podem ser localizadas ou disseminadas e em função de sua profundidade são dermatopatias potencialmente graves, uma vez que por sua proximidade com vasos sanguíneos, essa infecção bacteriana pode se disseminar por via circulatória e progredir para septicemia, e ainda as lesões são frequentemente dolorosas. 

As lesões cutâneas encontradas em cães com Piodermite Profunda incluem, entre outras: crostas melicéricas, crostas hemorrágicas e secreção purulenta, hemática e hemopurulenta, furúnculose, celulite, nódulos, fístulas, presença de úlceras e lesões erodoulceradas , pode ocorrer necrose tecidual.

 

Necrose tecidual em cão com Foliculite Furunculose Celulite.

Etiologia.

O Staphylococcus pseudintermedius, segundo o último guidelines, é o principal agente microbiano na Piodermite Profunda, com estreptococos, bactérias Gram-negativas e anaeróbicas encontrados em aproximadamente 40% dos casos, destacando a importância da cultura bacteriana e do teste de sensibilidade em infecções profundas.

 Fatores predisponentes/Doenças de base

Piodermites Profundas podem ser uma evolução ou agravamento de lesões superficiais como a Foliculite Bacteriana, onde por ruptura dos folículos pilosos as bactérias atingem a derme. 

Também traumas como mordidas, arranhões, lesões por objetos perfurocortantes e corpos estranhos também podem levar a Piodermites Profundas. De acordo com o último consenso, as Piodermites são consideradas sempre secundárias a doenças primárias ou de doenças de base, consequentemente a abordagem terapêutica dessas doenças primárias deve ser priorizada desde a primeira consulta.

Enfermidades parasitárias, alergo inflamatórias, disqueratinizantes, endócrinas e neoplasias podem ser consideradas doenças primárias que predispõem a Piodermite.

Erosão, ulceração e exsudato hemopurulento em cão com piodermite profunda.

Apresentações clínicas.

Foliculite furunculose-celulite: Pápulas, pústulas, crostas hemorrágicas, inchaço dos tecidos, eritema, alopecia, fístulas de drenagem, ulceração, pelo emaranhado em cães de pelo longo.

Cão com Foliculite Furunculose Celulite

Foliculite furunculose “pós-grooming” ou pós-tosa: Áreas eritematosas inchadas, pústulas hemorrágicas, crostas ou bolhas, erosões, úlceras, nódulos drenantes.

Foliculite furunculose piotraumática: Erosão ou ulceração, espessante, semelhante a placa bacteriana, lesão muitas vezes cerceada por pápulas satélites e pústulas; eritema, alopecia.

Furunculose/dermatite acral por lambedura: Placa alopécica, hiperpigmentada, centralmente erodida ou ulcerada, às vezes com fístulas drenantes.

Cão com Dermatite Acral.

Foliculite furunculose podal ou Piodermite Interdigital: Nódulo eritematoso (furúnculos), trajetos fistulosos (fístulas) ± secreção serossanguinolenta, superfícies palmar/plantar podem mostrar comedões, formação de ‘pseudocoxin.

Foliculite Furunculose Podal (Piodermite Interdigital)

Foliculite furunculose mentual (Acne) ou Piodermite Mentoniana: Pápulas, pode ou não ocorrer ulceração, eritema, exsudato hemopurulento (sangramento se vibrissas

são afetados).

Piodermite Nasal: lesão tegumentar profunda na região nasal, mais frequente em Bull Terrier, Pit Bull Terrier, Collie, Pastor Alemão e Dogo Argentino.

Piodermite furunculose de calo de apoio: Eritema, pontos de drenagem ou fístula, inchaço, crosta hemática ou melicérica (complicando as lesões associadas a calos de hiperqueratose, liquenificação).

Diagnóstico.

O diagnóstico das Piodermites Profundas, é realizado através da avaliação de seus sinais clínicos e lesões, subsidiado por exames citopatológicos e exames de identificação e sensibilidade do agente microbiano.

O diagnóstico é composto por três etapas importantes:

1- Exame minucioso da pele, identificando as lesões associadas a Piodermites de Superfície;

2- Exame citológico (citologia), confirmar a etiologia bacteriana (a presença do agente bacteriano), cocos intracelulares, confirmar que se trata de uma Piodermite Superficial;

3- Exames diagnósticos adicionais, investigar e determinar as causas primárias, descartar diagnósticos diferenciais, resumindo responder à pergunta: Por que o cão desenvolveu Piodermite? Lembrando da importância dessa etapa para o controle das Piodermites que são secundárias a patologias primárias (doenças primárias).     

Quando Cultura bacteriana e Testes de Sensibilidade Antimicrobiana são indicados em um cão com Piodermite Profunda?

Tratamento.

O tratamento sistêmico com antimicrobianos é preconizado para as Piodermites Profundas, em função de sua gravidade e possibilidade de evolução para septicemia, sempre que possível associado ao tratamento tópico.

Escolha do antibiótico sistémico:

Observação: nas Piodermites Profundas é sempre recomendado cultura bacteriana e testes de sensibilidade antimicrobiana, estes testes podem reduzir o risco de falha terapêutica, ainda, devido aos longos períodos de tratamento exigidos para Piodermite Profunda, o custo dos exames laboratoriais provavelmente será menor que custo de medicamentos potencialmente ineficazes escolhidos de forma empírica.

  • Antibióticos de primeira escolha: Cefalexina, cefadroxil, amoxicilina+clavulanato, clindamicina, lincomicina.
  • Antibióticos de segunda escolha: Cefovexina, cefpodoxime, fluorquinolonas (enrofloxacina, marbofloxacina, orbifloxacina, pradofloxacina, levofloxacina), tetraciclinas (doxiciclina, minociclina), sulfonamidas potencializadas (trimetoprima-sulfadiazina/sulfametoxazol, ormetoprima-sulfadimetoxina).
  • Antibióticos reservados: Limitados exclusivamente ao tratamento de infecções causadas por estafilococos multirresistentes (principalmente Staphylococcus pseudintermidius resistente a meticilina), e quando nenhuma outra opção de primeira ou segunda escolha é considerada adequada:  Rifampicina, amicacina, gentamicina, cloranfenicol. Uso criterioso e seleção cuidadosa.
  • Antibióticos fortemente desencorajados: reservados a medicina, proibido o uso veterinário em alguns países: Vancomicina, linezolida.

 

Tempo de antibioticoterapia para Piodermite Profunda

Tradicionalmente era recomendado um tratamento mínimo de 4 semanas, estendendo-se para 8 a 12 semanas e continuando por mais 2 semanas após a cura clínica. 

Entretanto, segundo último guidelines: 3 semanas como período inicial, associado a antimicrobianos tópicos sempre que possível, reavaliações a cada 2 semanas avaliando a evolução do quadro.  

Nas reavaliações ou retornos, de acordo com a evolução do quadro, pode-se interromper, prorrogar ou modular o tratamento de acordo com necessidades individuais de cada caso, ainda nas reavaliações se tem a oportunidade de avaliar a adesão, segurança do tratamento, investigar e manejar as doenças ou causas primárias.

Concluindo:

  • As Piodermites profundas em cães são doenças potencialmente graves e debilitantes, com risco de disseminação hematogênica e progressão para septicemia.
  • São doenças secundárias a uma patologia ou doença primária ou de base;
  • Logo o controle das doenças de base é fundamental para que o tratamento da Piodermite Profunda alcance bons resultados;
  • O Staphylococcus pseudintermidius é o principal agente microbiano envolvido, entretanto, estreptococos, bactérias Gram-negativas e anaeróbios foram encontrados em aproximadamente 40% dos casos de acordo com conclusões do último guidelines;
  • Foliculite furunculose-celulite, Foliculite furunculose “pós-grooming” ou pós-tosa, Foliculite furunculose piotraumática, Furunculose/dermatite acral por lambedura, Foliculite furunculose podal,  Foliculite furunculose mentual, Piodermite nasal, Piodermite furunculose de calo de apoio estão entre as principais apresentações clínicas da Piodermite Profunda em cães;
  • Diagnóstico baseia-se na identificação das lesões e sinais clínicos característicos e a citologia é extremamente importante;
  • Antibioticoterapia sistêmica é sempre indicada no tratamento da Piodermite Profunda, a escolha do antimicrobiano deve sempre basear-se nos resultados da cultura bacteriana e do antibiograma ou testes de sensibilidade bacteriana.
  • Sempre que possível deve-se associar tratamento tópico.

 

 Bibliografia consultada:

Hillier A, Lloyd DH, Weese JS, Blondeau JM, Boothe D, Breitschwerdt E, Guardabassi L, Papich MG, Rankin S, Turnidge JD, Sykes JE. Guidelines for the diagnosis and antimicrobial therapy of canine superficial bacterial folliculitis (Antimicrobial Guidelines Working Group of the International Society for Companion Animal Infectious Diseases). Vet Dermatol. 2014 Jun;25(3):163-e43. doi: 10.1111/vde.12118. Epub 2014 Apr 11. PMID: 24720433.

 

Morris DO, Loeffler A, Davis MF, Guardabassi L, Weese JS. Recommendations for approaches to meticillin-resistant staphylococcal infections of small animals: diagnosis, therapeutic considerations and preventative measures.: Clinical Consensus Guidelines of the World Association for Veterinary Dermatology. Vet Dermatol. 2017 Jun;28(3):304-e69. doi: 10.1111/vde.12444. PMID: 28516494.

 

Avaliação de formulações tópicas de clorexidine e de mupirocina no tratamento da piodermite superficial em cães. Raniere Gaertner. Orientador Prof. Dr. Marconi Rodrigues de Farias. Dissertação de Mestrado-Programa De Pós Graduação em Ciência Animal da Pontifícia Universidade Católica do Paraná-PPGCA- 2018

 

Santoro D. Topical therapy for canine pyoderma: what is new? J Am Vet Med Assoc. 2023 Mar 20;261(S1):S140-S148. doi: 10.2460/javma.23.01.0001. PMID: 36921021.

 

Gmyterco VC, Luciano FB, Ludwig LA, Evangelista AG, Ferreira TS, Borek F, de Farias MR. Comparative study of a commercial formula containing natural antimicrobials versus oral cephalexin or topical chlorhexidine-miconazole therapies for treating superficial pyoderma in dogs. Vet Dermatol. 2025 Apr;36(2):137-147. doi: 10.1111/vde.13323. Epub 2025 Jan 8. PMID: 39780363.

 

Loeffler A, Cain CL, Ferrer L, Nishifuji K, Varjonen K, Papich MG, Guardabassi L, Frosini SM, Barker EN, Weese JS. Antimicrobial use guidelines for canine pyoderma by the International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID). Vet Dermatol. 2025 Jun;36(3):234-282. doi: 10.1111/vde.13342. PMID: 40338805; PMCID: PMC12058580.